Resposta rápidaVoltar vazio gasta diesel, manutenção, pedágio e dias de caminhão parado na estrada, e quase nunca entra na conta do frete de ida. Um frete de retorno mais barato vale a pena quando paga pelo menos o custo variável da volta carregada: acima disso, ele sempre deixa o ciclo ida e volta melhor do que voltar vazio. Sem carga de volta garantida, o frete da ida precisa cobrir a viagem inteira.
O que é frete de retorno e por que ele decide o mês
Frete de retorno é a carga que o caminhão leva no caminho de volta, depois de entregar a carga da ida. A ida costuma ser negociada com cuidado; a volta fica para "ver o que aparece".
O problema é que o caminhão volta de qualquer jeito. Carregado ou vazio, roda os mesmos quilômetros e ocupa os mesmos dias. Por isso a conta certa não é a da viagem de ida sozinha: é a do ciclo, que começa quando o caminhão sai da base e termina quando ele volta pronto para o próximo frete.
Quem calcula o preço só pela ida enxerga lucro onde há prejuízo. Antes de fechar qualquer frete, tenha à mão o seu custo por km do caminhão, separado em custo variável (o que só existe se o caminhão rodar) e custo fixo (o que corre todo dia, rodando ou não).
Quanto custa voltar vazio com o caminhão
A volta vazia tem quatro custos, e nenhum deles aparece no frete da ida se você não puser:
- Diesel: vazio, a média melhora, mas o tanque continua baixando.
- Manutenção e pneus: o desgaste é por quilômetro rodado, carregado ou não.
- Pedágio: na ida, o pedágio vem pelo vale-pedágio do embarcador; na volta vazia, em regra, sai do seu bolso.
- Tempo: os dias de volta consomem parcela, seguro, IPVA e salário sem receita entrando.
A própria ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) reconhece essa diferença: no anexo da Resolução 5.867/2020, explica que o fator de pagamento do retorno vazio foi calculado pela diferença média de custo, de velocidade e de consumo entre o veículo carregado e o descarregado. Vazio custa menos, mas não custa zero.
Ida paga e volta vazia ou ida e retorno com carga: a conta
Um cavalo com carreta faz uma viagem de 800 km. Carregado, o custo variável é de R$ 3,38 por km (R$ 2,48 de diesel e R$ 0,90 de manutenção e pneus). Vazio, a média melhora e o custo cai para R$ 2,90 por km (R$ 2,00 de diesel e R$ 0,90 de manutenção e pneus). Os custos fixos do caminhão (parcela, seguro, IPVA e salário rateados) somam R$ 400,00 por dia. A comissão do motorista é de 10% do frete.
Frete da ida de R$ 7.200,00. O pedágio da ida veio pelo vale-pedágio; o da volta, pago do bolso, foi de R$ 280,00.
A ida sozinha parecia boa. Fechado o ciclo, o caminhão trabalhou quatro dias e pagou para isso.
O mesmo caminhão espera um dia no destino e volta carregado, com um frete de retorno de R$ 5.200,00, quase 28% abaixo do da ida. O pedágio da volta vem pelo vale-pedágio do embarcador do retorno.
A diferença entre os ciclos é de R$ 4.076,00, mesmo com um dia a mais e um frete de volta menor. Todos os valores são hipóteses: confira se cada frete fica acima do piso na calculadora oficial da ANTT.
Vale a pena aceitar um frete de retorno mais barato?
Vale, desde que ele pague o custo variável da volta carregada: diesel, manutenção, pneus, comissão, alimentação e qualquer pedágio que não venha no vale-pedágio. Os fixos correm de qualquer jeito e a volta vazia já ia gastar quase o mesmo diesel: todo real acima do custo variável da volta é resultado que não existiria voltando vazio.
No caminhão do exemplo acima, a volta carregada de 800 km gasta R$ 2.704,00 de diesel, manutenção e pneus e R$ 200,00 de alimentação em dois dias de estrada, mais 10% de comissão sobre o frete. O frete mínimo que cobre isso sai de uma conta simples: frete menos 10% de comissão igual a R$ 2.904,00.
Acima de R$ 3.226,67, esse retorno deixa o ciclo melhor do que voltar vazio. A regra tem três limites:
- Não aceite abaixo do piso. O piso mínimo de frete vale também para a carga de volta, quando ela é lotação. Pagar abaixo dele é proibido para quem contrata; aceitar puxa o preço da rota para baixo. Veja o guia do piso mínimo de frete da ANTT.
- Não aceite abaixo do custo variável. Entre o custo de voltar vazio e o custo variável da volta carregada existe uma faixa em que a conta até fecha melhor que a volta vazia, mas você passa a carregar para pagar parte do diesel.
- Conte o tempo e o desvio. Dois dias esperando carga ou 300 km fora da rota mudam a conta. Some os quilômetros a mais e os dias a mais antes de responder.
Se toda volta for aceita no limite, os fixos ficam nas costas da ida e a margem por viagem some.
Quanto cobrar no frete de ida e volta quando não há carga de volta
Se a rota costuma voltar vazia, o frete da ida precisa pagar o ciclo inteiro.
No primeiro ciclo acima, os custos sem a comissão somam R$ 7.304,00 (R$ 2.704,00 + R$ 2.320,00 + R$ 280,00 + R$ 400,00 + R$ 1.600,00). Para só empatar, o frete da ida menos 10% de comissão tem de chegar a esse valor.
R$ 8.115,56 é o empate, não o preço: a margem vem por cima. Para fazer a mesma conta com os seus números, use a calculadora de margem por viagem e preencha a distância com ida e volta somadas (o campo avisa: "Some a volta se ela for vazia"). Para chegar ao preço por quilômetro que cobre ida e volta, use a ferramenta quanto cobrar de frete por km.
Como encontrar carga de volta antes de sair
O melhor frete de retorno é o que está combinado antes de o caminhão carregar a ida. Os caminhos mais usados:
- O embarcador da ida. Pergunte se ele, um fornecedor ou um cliente dele tem carga no sentido contrário.
- Aplicativos e bolsas de carga. Plataformas como Fretebras e TruckPad publicam fretes por origem, destino e tipo de veículo. Filtre pela cidade de entrega e pelas vizinhas, confira quem está contratando e não pague nada adiantado para "liberar" carga.
- Transportadoras e agenciadores na região de destino. Desconte do frete a comissão de agenciamento antes de comparar.
- Rota de retorno planejada. Antes de aceitar a ida, olhe se o destino é polo que embarca carga (indústria, porto, região agrícola em safra). Destino com frete menor e volta garantida pode fechar o ciclo melhor.
Na volta carregada, a operação precisa estar regular como qualquer outra: registro no RNTRC (Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas) em dia e, quando exigido, o CIOT (Código Identificador da Operação de Transporte). Veja quando ele é obrigatório no guia do CIOT.
Retorno vazio no piso mínimo da ANTT: quando é obrigatório pagar
Na regra geral, o retorno vazio não entra no piso mínimo de frete. A Resolução ANTT 5.867/2020 (art. 3º, § 4º) só obriga o pagamento do retorno vazio em dois casos:
- transporte de contêineres;
- veículos de frotas específicas, dedicadas ou fidelizadas por razões sanitárias ou submetidas a certificações que limitam o tipo de produto que podem transportar.
Nesses casos, o art. 5º, § 6º manda calcular o retorno vazio como 92% do CCD (coeficiente de custo de deslocamento) da composição usada, multiplicado pela distância de retorno fixada em contrato. Fora deles, a volta vazia não tem pagamento obrigatório: ela precisa estar dentro do preço que você negocia.
Pedágio e tempo de espera na volta
Vale-pedágio. O vale-pedágio obrigatório da Lei 10.209/2001 é antecipado por quem contrata o frete, para a rota entre origem e destino da carga. Na volta carregada, quem paga é o embarcador do retorno. Na volta vazia, a ANTT informa que não há obrigação de antecipar o vale-pedágio, a não ser que um contrato obrigue o caminhão a circular vazio no retorno. Regras e prazos no guia do vale-pedágio obrigatório.
Eixo suspenso. Pela Lei 13.103/2015 (art. 17, com redação da Lei 13.711/2018), o caminhão que circula vazio fica isento de pedágio sobre os eixos que mantiver suspensos, em todo o país, inclusive nas rodovias concedidas.
Espera para carregar. O dia parado esperando a carga de retorno custa fixo e alimentação. Combine antes o horário de carregamento; os prazos e a estadia estão no guia de tempo de espera na carga e descarga.
O que fazer agora: 6 perguntas antes de aceitar o frete
- Quanto custa o ciclo inteiro? Some ida, volta, pedágio que sai do seu bolso, dias de alimentação e dias de custo fixo.
- Tenho carga de volta combinada? Se não, o frete da ida precisa pagar a volta vazia.
- O frete de retorno cobre o custo variável da volta carregada? Abaixo disso, você carrega para pagar diesel.
- Os dois fretes estão acima do piso da ANTT? Confira na calculadora oficial com o tipo de carga e os eixos certos.
- Quem paga o pedágio de cada trecho? Ida e volta carregada vêm pelo vale-pedágio; volta vazia, em regra, é sua.
- Quantos dias e quantos km a mais a volta exige? Espera e desvio entram na conta antes do sim.
Depois de cada ciclo, anote ida e volta juntas. Em poucos meses você sabe quais rotas voltam carregadas.
Faça essa conta com os números da sua frota
A calculadora de margem do portal mostra o resultado de uma viagem em segundos. O FroX guarda cada viagem e cada despesa para a conta sair sozinha, caminhão por caminhão.
Perguntas frequentes
O que é frete de retorno?
Quanto cobrar no frete de ida e volta?
Vale a pena aceitar frete de retorno abaixo do valor da ida?
O embarcador é obrigado a pagar o retorno vazio?
Quem paga o pedágio na volta vazia?
Onde encontrar carga de retorno?
Fontes
- Resolução ANTT 5.867/2020: art. 3º, § 4º e art. 5º, § 6º (retorno vazio obrigatório) (ANTTlegis)
- Calculadora oficial do piso mínimo de frete (ANTT)
- Lei 13.703/2018: Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (Planalto)
- Lei 10.209/2001: Vale-Pedágio obrigatório (Planalto)
- Perguntas frequentes da ANTT sobre o Vale-Pedágio obrigatório (item 09: quando não há obrigatoriedade)
- Vale-Pedágio obrigatório (gov.br/antt)
- Lei 13.103/2015, art. 17: isenção de pedágio sobre eixos suspensos de veículo vazio (Planalto)